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O número que todo mundo repete sobre a Jaguar é real. Ele só não diz o que parece dizer.

Antes de julgar um rebranding alheio, vale perguntar o que de fato aconteceu depois. Na maioria das vezes, ninguém foi conferir.

Daniel Nunes
· 8 min de leitura
Pilha de relatórios impressos sobre uma mesa branca, com uma lupa sobre uma das páginas e uma aba amarela marcando outra.
Imagem ilustrativa, gerada com AI.

Existe uma cifra que aparece em toda conversa sobre o rebranding da Jaguar: queda de 97,5% nas vendas europeias. Ela circula em post de LinkedIn, em apresentação de agência e em aula de branding.

Fui atrás da origem. Ela existe. Está na tabela de registros da ACEA, a associação europeia de fabricantes, no documento de abril de 2025 publicado em 27 de maio: União Europeia mais EFTA mais Reino Unido, 49 unidades contra 1.961.

O número é verdadeiro. O problema é o que foi feito com ele.

Aqueles 49 carros são de um mês, abril de 2025 contra abril de 2024. Não é o ano. E a comparação esconde o essencial: segundo a Jaguar Land Rover, a produção do XE, do XF e do F-TYPE acabou em maio de 2024, e a do I-PACE e do E-PACE, em dezembro de 2024. A identidade nova estreou em 19 de novembro de 2024.

Metade da linha parou seis meses antes do rebranding, e outros dois modelos, semanas depois. Desde novembro de 2024, antes da identidade nova, a marca também não vendia carro novo no Reino Unido. Em abril de 2025 a Jaguar quase não tinha carro para vender, numa transição para elétricos que a própria empresa chama, no relatório anual, de “wind down of Jaguar”.

Na União Europeia, a queda começou antes: de janeiro a outubro de 2024, sem nenhum dia de marca nova, a Jaguar emplacou 46% menos que no mesmo período de 2023. No recorte dos 97,5%, com o Reino Unido, estava estável. Sete de cada dez carros perdidos em abril de 2025 sumiram fora da União Europeia.

Carro esportivo coberto por uma capa cinza, sozinho num showroom branco e vazio.
Imagem ilustrativa, gerada com AI.

Não estou dizendo se o rebranding foi bom ou ruim. Estou dizendo que aquela cifra não mede o rebranding, e que qualquer pessoa confere isso em documentos públicos da ACEA e da própria JLR.

O único caso em que a empresa admitiu ao regulador

A Cracker Barrel anunciou um logotipo novo em 19 de agosto de 2025 e voltou atrás em 26 de agosto. Sete dias.

É o único dos casos em que a empresa admitiu o problema ao regulador. No relatório anual entregue à SEC em 26 de setembro de 2025, escreveu que o logotipo atualizado recebeu reação desfavorável do consumidor e gerou publicidade negativa.

Fileira de cadeiras de balanço de madeira, vazias, na varanda de um restaurante de beira de estrada.
Imagem ilustrativa, gerada com AI.

Uma frase, nenhum número. Depois foi além: em carta aos acionistas de outubro de 2025, admitiu que errou no lançamento e que a reação foi muito além do que poderia prever. No relatório anual de setembro de 2026, atribuiu a queda de 7,6% no movimento de clientes do exercício principalmente à reação ao logotipo novo e às lojas reformadas em teste, e à economia, sem separar uma causa da outra.

As cifras de valor de mercado perdido circulam em quatro versões, de 94 a quase 200 milhões de dólares, e nenhuma vem da empresa. Duas, da CBS News, medem o mesmo pregão, o de 21 de agosto: 94 milhões pelo fechamento e quase 200 milhões pela mínima do dia. A Fox Business publicou mais de 143 milhões até 25 de agosto, pelo cálculo do Dow Jones Market Data. A quarta, mais de 160 milhões em seis dias, está num documento entregue à SEC pela Biglari Capital, de Sardar Biglari, que comanda o concorrente Steak 'n Shake e fazia campanha contra dois conselheiros, entre eles a CEO. O documento não diz como chegou ao número, e os preços de fechamento não o reproduzem.

Isso não torna o número falso. Torna o número interessado, e isso muda como ele deve ser lido.

A cotação conta uma história menos limpa. A ação fechou a 60,72 dólares em 18 de agosto, antes do anúncio, e a 54,27 em 25 de agosto. A reversão veio no dia 26, depois do fechamento, e no dia 27 a ação fechou a 62,33, acima do nível anterior ao anúncio. Em 5 de setembro estava em 52,81.

Quem conta a história de 18 a 25 de agosto encontra desastre. Quem conta até 27 de agosto encontra recuperação completa. Quem conta até 5 de setembro encontra uma queda maior, que nenhuma das quatro cifras mede e cuja causa ninguém isolou. A janela escolhida produz a conclusão.

As duas medidas

O dado que mudou meu entendimento vem de uma pesquisa que costuma aparecer pela metade.

A YouGov ouviu 1.002 adultos dos Estados Unidos em 23 e 24 de agosto de 2025, entre o anúncio e a reversão, com margem de 3,2 pontos.

O número que todo mundo cita: 76% preferiam o logotipo antigo. A pergunta mostrava os dois logotipos e obrigava a escolher um.

O número que quase ninguém cita, da mesma pesquisa: 59% disseram que a mudança não alterava em nada a vontade de ir ao restaurante. Do resto, 29% disseram que iriam menos, 9% que iriam mais e 3% não souberam.

Preferência estética e intenção de compra são medidas diferentes. Quem usa os 76% como prova de dano comercial cita a medida errada. A certa mostra uma maioria que não mudaria nada e, entre os que mudariam, um saldo contra a marca. E intenção ainda não é comportamento: menos de um mês depois, em 17 de setembro de 2025, a empresa disse que o movimento nas lojas tinha caído cerca de 8% desde o anúncio.

O que eu pergunto antes de julgar

Depois de alguns anos fazendo marca, eu desconfio de toda frase que começa com “esse rebranding foi um erro”.

Meu papel não é julgar quem fez. É perguntar por que aquilo foi decidido, porque estranhamento não é prova de erro. Ele pode ser o objetivo: se uma marca quer alcançar outro público, o público que ela já tem vai estranhar. Toda mudança produz crítica e elogio, e isso é a condição do trabalho, não o resultado dele.

Aprendi isso duas vezes, e nas duas o estranhamento veio do próprio cliente.

A primeira foi uma marca de tecnologia para medicina. O cliente chegou com referência moderna e jovem e pediu aquilo. Nós tínhamos indicado o contrário desde o começo: a imersão e a estratégia mostraram que, pela solução e pelo mercado, a marca precisava ser mais sóbria. Seguimos o briefing dele. Na apresentação, ele disse que aquilo não ia comunicar com o público dele. Refizemos tudo, e a segunda versão foi aprovada sem rodada de ajuste.

A segunda foi um cliente do setor de mudanças, um mercado de marcas pouco trabalhadas. Ele quis o oposto do mercado, fizemos, e ele achou que tinha ficado demais. O caminho foi equilíbrio: não importa para que lado a marca pesa, importa que todas as frentes digam a mesma coisa.

O que os dois casos têm em comum virou meu critério. Nas duas vezes em que o cliente estranhou, nós também tínhamos sentido que ia estranhar, e tínhamos dito isso antes. O estranhamento não foi informação nova. Foi um risco que nós nomeamos e que o cliente escolheu aceitar.

Seria possível julgar o resultado pela opinião sobre a marca. Mas, nos dois casos, a marca foi consequência da estratégia que desenhamos antes dela. Na prática, o que pode estar errado é a estratégia, e estratégia se discute.

Então, quando a reação do mercado chega, depois do lançamento, minha primeira pergunta não é quantas pessoas reclamaram. É se alguém no projeto tinha previsto aquilo. Estranhamento previsto é risco aceito, e risco aceito não é motivo para voltar atrás. Estranhamento que ninguém previu é informação nova, e é esse que me faz parar.

Também demorei a entender que, nesses momentos, a opinião do cliente, quase sempre o dono da empresa, é incompleta. Quando a visão dele difere da do time dele, eu peso o time, que convive todo dia com a percepção de quem compra. A disciplina é tirar o meu gosto da decisão. A minha opinião sobre um logotipo não é dado. É só mais uma reação.

No Brasil a pergunta é ainda mais difícil

Quase tudo o que você leu até aqui depende de dado público: registro de venda, relatório entregue a regulador, cotação em bolsa, pesquisa com metodologia publicada. No Brasil quase nada disso existe. A marca que passa por rebranding costuma ser de capital fechado e não publica resultado.

A Printi, gráfica de Barueri controlada pela Cimpress, lançou em outubro de 2024 um reposicionamento desenvolvido com o estúdio Meiuca, com logotipo novo, paleta nova e o slogan “A sua gráfica, sempre.”.

A expressão visual nova me pareceu mais sóbria e mais próxima de marca de tecnologia. A linha declarada diz outra coisa: “A sua gráfica, sempre.” e a promessa de ser uma “gráfica 7 em 1” afirmam que a empresa é uma gráfica.

Aqui, a intenção está publicada. A Printi diz que a marca nova está “mais alinhada ao orgulho de sermos gráfica, com mais atenção ao design e tecnologia”. A Meiuca resume o desafio no case: “contar ao mercado que vai além do online, fugir de um enorme legado tecnológico e adicionar uma layer de qualidade em sua percepção de marca”.

No lançamento, o CEO, Hans Lenk, explicou a mudança no comunicado reproduzido pela ABFLEXO: “A mudança da marca foi motivada a partir da necessidade de alinhar a percepção externa com a realidade das operações internas e capacidades tecnológicas, reposicionando a empresa como uma solução completa e consultiva no mercado gráfico e não apenas uma gráfica comum”.

Com essa intenção na mão, a marca nova se explica: gráfica, com mais tecnologia. A reação não foi fácil. Um ano depois, o CEO escreveu no LinkedIn que “os primeiros meses foram duros: críticas, bugs, instabilidade e clientes questionando nossa decisão”. Bugs e instabilidade falam do site, relançado junto com a marca. Ele concluiu que o risco valeu a pena, e a empresa sustentou a mudança.

O que não está publicado é o resultado. O comunicado trazia uma meta: faturar R$ 200 milhões no ano fiscal iniciado em julho de 2024, 30% acima do anterior. A Cimpress não abre a receita da Printi nos relatórios à SEC, e a Printi fala em faturamento recorde, sem número. Não dá para saber se chegou lá.

O que fica

A opinião alheia sobre um rebranding não vale muita coisa sem a pergunta de por que aquilo foi feito.

A Jaguar declarou a sua intenção no comunicado da identidade nova: ser relevante para um público contemporâneo e inspirar uma nova geração. A mudança contraria quase tudo o que ela construiu como marca de tradição. Mas contrariar pode ter sido o ponto.

Na maioria das vezes a intenção chega em uma frase, quando chega, e quase nunca com um número que separe o efeito da marca do resto.

Os dois casos em que a empresa falou da reação mostram os dois lados do meu critério. A Cracker Barrel disse que a reação foi muito além do que poderia prever, e voltou atrás em sete dias. O CEO da Printi tratou a reação como um risco que valeu a pena, e manteve a marca.

Por isso a nossa opinião não pode se fundar apenas na reação do mercado. A reação que o mercado teve pode ter sido exatamente a reação que a marca queria provocar.

Fontes

  1. ACEA. Comunicados de registros de carros novos de outubro de 2024 e de abril de 2025, publicados em 21/11/2024 e 27/05/2025, com as tabelas por fabricante da União Europeia e de União Europeia, EFTA e Reino Unido.
  2. Jaguar Land Rover. Comunicado de vendas de 07/07/2025. Relatório anual do exercício encerrado em 31/03/2025.
  3. Jaguar. Comunicado de lançamento da identidade, de 18/11/2024, com estreia em 19/11/2024. Declaração da JLR à revista Autocar, de 31/10/2024, sobre o fim das vendas de carros novos no Reino Unido.
  4. Cracker Barrel Old Country Store. Release de 19/08/2025. Relatório anual (Form 10-K) protocolado na SEC em 26/09/2025. Teleconferência de resultados de 17/09/2025, com o tráfego desde 19/08. Carta aos acionistas de 07/10/2025. Relatório anual (Form 10-K) do exercício encerrado em julho de 2026, protocolado em 25/09/2026, com o tráfego comparável de clientes.
  5. Biglari Capital. Proxy preliminar (PREC14A) protocolado na SEC em 18/09/2025, em campanha de voto contra dois conselheiros. A cifra de valor de mercado não traz método.
  6. CBS News. Reportagem de 21/08/2025, atualizada em 25/08/2025, sobre o valor de mercado perdido no pregão de 21/08, pelo fechamento e pela mínima do dia.
  7. Fox Business. Reportagem de 25/08/2025, com cálculo do Dow Jones Market Data do último fechamento antes do anúncio ao de 25/08.
  8. Cotações CBRL. Fechamentos diários sem ajuste por dividendos, Yahoo Finance e StockAnalysis, agosto e setembro de 2025.
  9. YouGov. “Americans push back on Cracker Barrel's logo rebrand: news survey”, 27/08/2025, e tabela de resultados. 1.002 adultos dos Estados Unidos, painel online de adesão voluntária, ponderado por idade, gênero, raça, filiação política, escolaridade e região, campo em 23 e 24/08/2025, margem de 3,2 pontos.
  10. Printi. Página institucional, no ar desde outubro de 2024.
  11. Meiuca. Página do case Printi, no arquivo do site antigo do estúdio, consultada em 28/10/2026.
  12. ABFLEXO. “Printi desenvolve inteligência artificial própria e anuncia novo posicionamento”, 23/10/2024, reprodução do comunicado publicado pela Economia SP em 16/10/2024. “Printi comemora 13 anos de operação com faturamento recorde no último ano e mais de 150 mil clientes ativos”, 09/09/2025.
  13. Hans Lenk, CEO da Printi. Post no LinkedIn de 06/10/2025.
  14. Cimpress plc. Relatórios anuais (Form 10-K) dos exercícios encerrados em junho de 2025 e junho de 2026. Nenhum divulga a receita da Printi.
Lacuna declarada

O que eu não consegui verificar

A ACEA não separa o Reino Unido por fabricante. A conta de que sete de cada dez carros sumiram fora da União Europeia é a diferença entre duas tabelas do mesmo comunicado.

O fim das vendas de carros novos da Jaguar no Reino Unido aparece numa declaração da JLR à revista Autocar, não num comunicado público.

Não encontrei a causa da queda de 8,5% da ação da Cracker Barrel em 2 de setembro de 2025, a maior do período depois da reversão.

A YouGov não publicou os cruzamentos da pesquisa. Não dá para saber como responderam só os clientes do restaurante.

A página do case da Meiuca lista design de produto, design system e e-commerce. Não consegui confirmar quem desenhou o logotipo novo da Printi: o comunicado fala em projeto feito a quatro mãos.